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Sibila 10
10Mai2006 18:10:00
Publicado por: José Lemos
Sibila 10

Um velho poeta espanhol, não sei se ainda vivo, afirmava que a poesia deve cantar o mesmo que cantariam os restantes homens se tivessem um poeta dentro. Esta liminar observação transportou-me para uma das manifestações estéticas mais sublimes da história da humanidade – a Nona Sinfonia de Beethoven que, ao elevar-se acima da noite e da miséria, nos dá a conhecer uma crença na vida e no dom da alegria. É a vitória sobre o reino das sombras. A obra atinge o cume com o Hino da Alegria de Friedrich Schiller - um maiores exemplos de como a genialidade musical e literária se unem para permitir a universalização da humanidade, da solidariedade, da fraternidade e da tolerância.


Não será muito difícil, a partir daqui, mergulharmos nos mistérios da existência de Deus. As principais fés estarão de acordo em relação a só ser Um, uno e indivisível, e as grandes diferenças talvez só existam nas diferentes maneiras de o adorar. Eu, muito particularmente, continuo a questionar se Deus pretende ser adorado e encaro qualquer manifestação religiosa, não como afirmação da totalidade do real, mas como duvidosa aproximação ao mistério. Há uma velha metáfora que afirma que qualquer religião é um dedo assinalando a lua. Então, encontramos aqueles que se limitam à contemplação do dedo; quem o chupe como o bebé o biberão; quem arranque olhos com o mesmo dedo. Muitos ultrapassaram a metáfora e foram catalogados de blasfemos e o seu destino foi (é) a fogueira e outros suplícios da martirologia.


Pergunto-me quem divagará seriamente acerca da existência de Deus? Quem ajudará o peixe a descobrir o oceano em que se desloca? Quando a religião traz quietude ao homem, o mantém em paz com os seus semelhantes e ordena ao seu espírito para que se sinta acompanhado, naturalmente que é bem vinda. Mas se o ensina a odiar, e a não amar o bastante, estamos perdidos – há excesso de seitas inimigas ferindo-se mutuamente, não nos seus sentimentos religiosos, mas nos seus integrismos fundamentalistas e consequentes dogmatismos. A honestidade não autoriza a santificação individual da observação cega da lei. Se o povo hebraico foi o eleito de Deus; se a salvação consiste na obediência a Maomé, seu único profeta; se fora da Igreja não há senão condenação… não se pode estranhar que um homem santo desejasse deitar fogo ao templo. As pessoas ocupar-se-iam mais do Senhor que das suas residências.


Provavelmente o divino só se encontra no ordinário e no quotidiano. Talvez a santidade seja um mistério tão grande como Deus, e quanto maior seja, como a obscuridade, se veja menos, e, como a beleza, só seja verdadeira quando careça da consciência de si mesma. A experiência de Deus é a ausência de si mesma. O sonho só se conta quando acordamos. Como a morte, Deus não está quando eu estou; e eu vou, não obstante o meu caminho é nele. Não há raio de luz que se apanhe com a mão; só o espelho o absorve e reflecte.


As religiões serão desnecessárias?!…Predicam-nos a maneira mais difícil de entrar numa casa em que as portas estão abertas de par; criam o temor que se apague a luz da nossa vela quando querubins cantam em pleno dia. Que o bom Deus as perdoe.
Shelley, o romântico inglês, na sua Defesa da Poesia diz: “ É provável que a poesia de Moisés, Job, David, Salomão e Isaías tivessem impressionado os espíritos de Jesus e seus apóstolos. Os fragmentos dispersos que os biógrafos deste ser extraordinário guardaram para nós, estão todos imbuídos da mais vívida poesia. Mas as suas doutrinas parecem ter sido rapidamente deformadas.”


A Sibila
(20.11.2001)

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