Menu

RSS






Estado Civil


Agora pelo menos - 06Jan2009 08:36:00


No segmento «Fiction» do seu filme Storytelling (2001), Todd Solondz conta a história de uma rapariga que se inscreve num curso de escrita criativa e se envolve sexualmente com o professor, um negro vencedor do Pulitzer. Ele aprecia sexo à bruta, e gosta de insultos raciais durante o acto. Chocada com o que ele a obriga a fazer e dizer, a rapariga decide escrever um conto confessional e explícito sobre essa experiência, texto que lê alto na aula, visivelmente perturbada. Os colegas fazem toda a espécie de comentários desagradáveis sobre a história (morais, estilísticos, ideológicos, pedantes).«Mas isto aconteceu», exclama a rapariga. O professor, que esteve calado e sisudo, comenta: «Eu não sei o que aconteceu, Vi, porque quando começas a escrever, torna-se tudo ficção». Mas acrescenta que, de todo o modo, esta história, comparada com as tentativas anteriores, é um avanço: «Agora pelos menos há um princípio, um meio e um fim».

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2009/01/agora-pelo-menos.html

Luto e melancolia - 05Jan2009 22:12:00


O texto tem-me acompanhado no último ano: chama-se em alemão Trauer und Melancholie (belo título) e foi publicado por Sigmund Freud em 1916. Para compreender este ensaio é preciso ter em atenção que Freud utiliza as duas palavras-chave em sentido diferente do habitual. Assim, «luto» não designa apenas o sentimento de pesar pela morte de alguém, mas o sentimento de perda de qualquer «objecto» real ou imaginado (uma pessoa, um tempo, um sítio, uma ideia). De igual modo, «melancolia» não é uma tristeza benigna mas equivale aqui ao conceito de «depressão». A questão é a seguinte: como é que se passa (e como se evita passar) do luto à melancolia? Ou dito de outro modo: da tristeza (normal) à depressão (patológica)?

Freud sugere que a passagem do normal para o patológico acontece por dois motivos: um fracasso e um desvio. O sujeito não consegue desligar-se emocionalmente do objecto que perdeu, isto é, não faz o luto completo, e a dado momento desvia o sentimento que tinha sobre o objecto em direcção a si mesmo. É, escreve Freud, como se o sujeito perdesse não o objecto mas o «eu». Ele identifica o ego com o objecto e, uma vez derrubada a barreira da auto-estima, ataca o ego como se atacasse o objecto perdido. Cada lamento é uma acusação, cada acto masoquista uma raiva reprimida. Um exemplo clássico deste personagem, diz Freud, é Hamlet, o doce príncipe condenado à sua irresolúvel angústia e aos seus inúteis teatros.

Freud não considera que a melancolia seja totalmente negativa. É verdade que ela causa grande sofrimento ao sujeito, mas é uma espécie de porta para a verdade. A melancolia, dada a sua natureza introspectiva, ajuda ao auto-conhecimento. Freud comenta com ironia que às vezes é preciso ficarmos doentes para nos conhecermos. Não é que as ideias do melancólico sobre si e sobre o mundo estejam «certas». Isso não importa: o que importa é representação que ele faz de si e do mundo. É porque essa representação existe que se pode actuar sobre ela. E nem é preciso que seja no contexto médico. Todos os melancólicos fazem gradual e periodicamente uma complicadíssima verificação para saberem se se querem separar do objecto morto (uma pessoa, um tempo, um sítio, uma ideia). Curiosamente, é a própria experiência da melancolia que «desobscurece» o que estava oculto, o que permanecia ambíguo e ambivalente. Freud explica isso numa formulação muito bonita: o amor, ao refugiar-se no ego, escapou à extinção. E um dia, com o tempo, sai desse turbulento refúgio. E então o sujeito que sofre torna-se um sujeito consciente.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2009/01/luto-e-melancolia.html

- 01Jan2009 23:05:00
Nas últimas semanas os posts têm entrado anarquicamente. Já estão completos os textos sobre Summer of 42, as mulheres que Deus criou, uma sinopse do caderno inglês que perdi há dias, a versão final da lista de blogues, discos, filmes e livros do ano, a actualização dos grandes acontecimentos e do in memoriam, e a mensagem de fim de ano» mais notável de todas.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2009/01/nas-ltimas-semanas-os-textos-tm-entrado.html

2006 /2008 - 31Dez2008 02:13:00
Mas o que foi este psicodrama, ó Mexia? Como dizia o outro: follow me. Todos temos um punhado de experiências que modificam as nossas vidas para sempre, certo? Certo. Esta foi uma delas, e aconteceu que eu tinha um blogue e me apeteceu escrever sobre isso. Ser o sismógrafo de mim próprio, num período violento e perigoso. É que se há episódios que afectam bocados da nossa vida, este afectou todos: foi um acontecimento, como diz o Badiou ou o que é. Há um antes e um depois de 2006, uma pessoa diferente em termos estéticos, psicológicos, políticos, morais, filosóficos, sexuais, científicos, estilísticos, temperamentais, emotivos, sociais e mesmo religiosos. Foi como o trivium e o quadrivium medievais: um curso intensivo sobre tudo. Ela supõe que tomou uma questionável decisão de gosto (não tomou: o gosto dela é irrepreensível), quando na verdade tomou uma decisão ética colossal. Bem sei que vivemos em tempos em que não nos tocamos senão no sentido carnal, em que somos pós dos modernos e tudo é fungível e esquecível em dois minutos. Lamento mas eu sou enxertado de oitocentista (já tinham reparado), acho que aquilo que fazemos fica connosco e também afecta os outros. E às vezes destrói-nos e nós e destrói os outros. Tinha um blogue e dei conta disso, em directo e sem rede, como quem vê um papel no fogo a encarquilhar-se, a ficar negro, a ser desfeito pelas chamas, primeiro as pontas queimadas, depois uns riscos alaranjados que despontam na outra extremidade após um fogacho, depois uma confluência de fogos algures a meio, onde o papel já é uma bola carbonizada, cinza frágil ao toque. Eis o que vistes, e não foi bonito, alguém que fez dois bonecos vudu e foi espetando um e outro como entretém para os convidados, mas gostava que tivesse ficado mais alguma coisa, um homem que como no poema de Yeats «knows all the cost» porque «he gave all his heart and lost». Perdi, perdi em grande, e agradeço a todos aqueles que por bons ou maus motivos foram espreitando a minha derrota.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/blog-post_1280.html

Diário de um mau ano - 31Dez2008 01:11:00
«(...) there was something personal going on, something to do with age and regret and the tears of things. Which she did not particularly like, did not want to evoke, though it was a tribute to her (...)».

J.M. Coetzee, Diary of a Bad Year (2007)



Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/blog-post_31.html

Uma rede de enguias - 31Dez2008 00:47:00
A Chincha é uma rede com o comprimento aproximado de 32 braças (cada braça ronda 1,5 m) dividida em 2 partes iguais, levando ao meio um saco com 5 braças, sendo a malha mais apertada no final. Em todo o comprimento da rede leva em ambos os lados uma corda (tralha). No lado de fora é colocada a cortiça (ou bóias), para manter a rede à tona da água, e no de dentro é posto chumbo (ou bolos de barro), para que a rede chegue ao fundo do rio. Em ambas as pontas tem o calão (pequeno pau de madeira) do qual saem as cordas. Entre o calão (0,5 braça) e o saco, a rede vai alargando para as 2,5 braças. Para que a rede se mantenha o mais coordenada possível, são utilizadas bóias bem mais visíveis sobre o saco que se mantêm sempre fora de água. As cordas têm também uma marca que especialmente à noite é um auxiliar importante.

[do site Ovar Virtual]




I have sat and listened to too many
words of the collaborating muse,
and plotted perhaps too freely with my life,
not avoiding injury to others,
not avoiding injury to myself--
to ask compassion . . . this book, half fiction,
an eelnet made by man for the eel fighting


(excerto de «Dolphin», de Robert Lowell, da colectânea The Dolphin, 1973)

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/uma-rede-de-enguias.html

Sono e tempestade - 31Dez2008 00:44:00
Li uma lúcida entrevista ao centenário Elliott Carter e comprei um disco dele, porque nunca tinha ouvido nada. Uma vez que o idioma musical vanguardista me é desconhecido, escolhi território conhecido: os poemas de Robert Lowell, que Carter adaptou em In Sleep, In Thunder (1981), seis canções para tenor e catorze instrumentos. Os poemas de Lowell, sobre crises pessoais e crises de fé, são maravilhosos, no seu formalismo heterodoxo e nas constantes guinadas de tom. Carter escreveu que apreciava naqueles textos «as mudanças rápidas e controladas, da paixão para a ternura, do humor para o sentimento de perda». A volatilidade dos versos de Lowell (espelho da sua depressão) serve a Carter como exercício mozartiano de contradições. Os poemas (e as canções) são paródicos, pastorais, mas também tresloucados e violentos, como nesse «Dies Irae» que dá o mote apocalíptico ao conjunto (é Deus que fala connosco «in sleep, in thunder»). Tanto nos poemas amorosos como nos poemas religiosos, a irrequietude sofisticada e sofrida de Lowell era um desafio, mas Elliott Carter pegou nesses poemas e compôs canções sofridas, irrequietas e sofisticadas. Homenageou assim o seu amigo Robert Lowell como só um amigo consegue.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/sono-e-tempestade.html

À cidade e ao mundo - 30Dez2008 13:59:00
De todas as alocuções de fim de ano (presidente, primeiro-ministro, cardeal patriarca) aquela de que mais gostei foi a de Cláudia Vieira, difundida à cidade e ao mundo via Diário de Notícias. E não gostei apenas porque gostaria de Cláudia Vieira mesmo a ler a lista telefónica (gostaria), mas porque a entrevista confirmou tudo o que eu tenho defendido, contra os seus detractores cegos e estúpidos. Comecemos por isto: Cláudia é uma mulher. Quanto o entrevistador diz que ela nasceu em 1979, ela corrige e anuncia que nasceu em 1978. Não há muitas mulheres que corrijam a sua idade para mais, especialmente na fronteira entre décadas. Cláudia tem pois 30, a caminho dos 31, não é uma meninoca qualquer, como uma rapariguelha com quem tentam que ela se confronte, uma rita que não é de cássia e tem uma mamas impositivas. Nada é impositivo em Claúdia, tudo é seguro como a Lianor de Camões pela verdura. Parece que ela ficou «surpreendida» com uma entrevista tão extensa e com tanto destaque num jornal generalista, mas isso é a tranquila modéstia dos grandes. Porque Cláudia está à vontade, do princípio ao fim. Aliás, toda a entrevista é sobre «estar à vontade»: estar à vontade com a celebridade, estar à vontade com a exposição, estar à vontade com os cartazes em lingerie e estar à vontade com as cenas de nudez. A resposta a todas estas dúvidas é simples: Cláudia Vieira está à vontade. Sente-se bem consigo mesma, resguarda a vida privada na medida do possível, gosta de se ver nos cartazes, quis cenas de nudez a contraluz, diz sobre as fotos da GQ «as mais ousadas é que estavam melhores» (um juízo estético como código moral), não ponderou ainda possíveis convites da Playboy portuguesa e quanto aos mupis garante: «é tudo verdade» (i.e. sem Photoshop, mas deixem que veja aqui um aforismo mais elevado). Ela tornou-se conhecida como estrela de novelas, mas agora está nas mentes de todos os homens (excepto os cegos e estúpidos) por causa da Triumph. Quanto a esse assunto, é pragmática: à conta do anúncio, a marca abriu mais lojas e ela, Cláudia, tornou-se mais conhecida e foi eleita a «nona mulher mais bonita do mundo». As feministas degradam as mulheres como sendo «objectificadas» pela nossa sociedade. Mas elas são sujeitos, às vezes sujeitos negociais, e neste caso foi um negócio proveitoso para ambas as partes. Habituem-se. E a «pressão?», pergunta o jornalista. Ela está (já sabem) à vontade com isso, e afasta facilmente propostas indecentes. Aquilo que a surpreende é que faça agora parte do «imaginário» de homens que já a conheciam e que ela não pensava que lhe ligassem nenhuma. A explicação é evidente, tão evidente como a avidez dos cartazes, e que eu aliás já decifrei nos cartazes: Claúdia é uma mulher simples, descontraída, natural, aquilo a que eu chamei, numa expressão contestada, uma rapariga portuguesa. Não há lascívia na persona pública de Cláudia, como se vê quando ela refere a «pele sensível» (é por isso que cora tão facilmente), a tez morena, quando aponta para o peito e diz que desconhece as suas medidas (86-64-94) ou quando confessa que gosta da sua barriga e não gosta das suas mãos (é rara a mulher bonita que gosta das suas mãos, porquê?). Se ela está tão à vontade é porque já foi uma rapariga como as outras, meio «patinho feio» e tudo, muito alta para a sua idade e desportista, até um surfista lhe deu tampa (um surfista cego e estúpido). Depois (aos 17) é que começou a entrar naquelas «avaliações da rapariga mais bonita da escola» (e diz «avaliações» com a mesma tranquilidade com que admite que é bonita). Agora, reconhece que tem outro «estatuto» (o de símbolo sexual), com o qual se sente (mais uma vez) à vontade, e que luta por outro «patamar» como actriz. Sendo actriz de televisão, passa por cima das tricas televisivas nacionais e anuncia o seu interesse em novelas da Globo. É o começo da internacionalização, que também passa pelo cinema. As estreias com CV que aí vêm são fraquinhas, mas o que ela gostava era de trabalhar com cineastas propriamente ditos, filmar com Woody Allen por exemplo: «Pode ser que ele leia esta entrevista» (que doçura). Ela vai entretanto debutar em teatro (Paulo Matos, que a Força esteja contigo), e anda ansiosa, com a barriga às voltas (e nós visualizamos voltas na barriga na Cláudia Vieira). Mas é medo passageiro, porque ela triunfa sempre (viram o trocadilho?). Se Cláudia está tão à vontade com o mundo é porque tem uma relação estável com o mundo, o que também passa por um namoro estável (gosto quando ela refere o namorado com nome e apelido). Aos 30 (não 29), Cláudia ouve o relógio e quer ser mãe um dia destes, até porque aprecia a vida em família. É isso que ela quer da vida, e não necessariamente grandes paixões, que as paixões são inimigas de estabilidade: «Isso dos grandes amores tem dias», e nem La Rochefoucauld o disse mais bem dito. Em todo o caso, em casa, no teatro e no mundo, ela acha que é tempo de mudança. Ela, que é «de centro», assegura que não defende «a mudança pela mudança» (é de centro-direita, vá). Mas uma coisa é certa, ao contrário das meninocas empinadas e esparvoadas, Cláudia não será um epifenómeno, pelo menos se tiver juizinho, e esta rapariga tem mais juizinho que trinta juízes do Supremo. Deus a vigie e proteja, são os meus votos à cidade e ao mundo. Ide, e que ela vos acompanhe. Ámen.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/blog-post_30.html

Vá para fora cá dentro - 30Dez2008 12:34:00
Será que a blogosfera está «cada vez pior», como pretende (e é isso mesmo: pretende) Pacheco Pereira? É evidente que a blogosfera foi uma novidade e um fenómeno em 2003, e que depois disso cresceu muito para além do pequeno grupo inicial, instalou-se nos nossos hábitos e, digamos, estabilizou. O seu crescimento desmesurado faz com que hoje seja bastante difícil dizer generalidades sobre «a blogosfera». Embora Pacheco Pereira tenha já dito que «lê tudo», é objectivamente impossível ler todos os blogues portugueses em actividade, e todos conhecemos um punhado de blogues bons mas obscuros, geralmente porque não são cooptados por ninguém. Haverá sem exagero uma centena blogues que vale a pena ler de vez em quando. Desses cem, há uns trinta com os quais tenho mais afinidades, e são esses que estão na minha lista de links, mas às vezes visito outros, sobretudo quando alguém me chama a atenção para um texto específico. É verdade que os blogues «conhecidos» estacionaram, e que a blogosfera não anda muito «excitante», mas não se vê em que sentido é que está «cada vez pior».

O que acontece é que Pacheco Pereira só está atento à blogosfera «pública», aquela que se dedica a escrever sobre o «LÁ FORA» (sic). Por isso é que Pacheco diz, e tem razão: « [a blogosfera] Ganhou todos os defeitos do jornalismo, quer os públicos, quer os de bastidores (?) e nenhuma das qualidades. (?) Está a tornar-se numa colecção de dichotes, pseudopiadas, ajuste de contas, e "bocas" que passam por ser opiniões. No geral é tudo muito mau, mesmo muito mau. (?) Pelas mesmas razões e com os mesmos personagens (na maioria jornalistas) a blogosfera politizou-se no pior sentido, de forma obscura e pouco transparente». Genericamente isto é verdade, e o tédio e trivialidade da blogosfera «política» dão razões ao pessimismo de Pacheco. Mas nem só do LÁ FORA vivem os blogues. Pacheco tem aquela velha repugnância marxista pelo registo autobiográfico emotivo, e por isso não liga à blogosfera do CÁ DENTRO, mas a blogosfera do CÁ DENTRO tem gente interessantíssima, culta e de boa prosa.

É evidente que se os desgostos amorosos, o envelhecimento, o luto, a sedução, o medo, a alegria, o tédio, a chacota, a libido, a saudade, a raiva ou as angústias metafísicas não interessam nada, então a blogosfera é de facto pouco interessante. Só que, ao contrário do que diz Pacheco, a blogosfera «pessoal» (que não necessariamente confessional ou intimista)é bem interessante.

Pacheco, que se acha sempre um adulto no meio de adolescentes, repudia os «estados de alma», que considera simples imaturidade ou exibicionismo. O longo convívio com a história do comunismo soviético acentuou nele essa ideia terrível: a de que só têm interesse os problemas colectivos (e sisudos), ao passo que as preocupações individuais são umbiguismo estéril. Triste jdanovismo este, vindo de um homem que preza a liberdade.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/triste-jdanovismo.html

Wow - 30Dez2008 12:20:00


No final duma fabulosa versão de «Master and Everyone» (última faixa do álbum ao vivo Is It The Sea?) há um silêncio e um homem diz «wow» antes de a casa vir abaixo. Eu também aplaudia, se lá estivesse, mas não há nada como aquele «wow», aquele espanto que é ao mesmo tempo elogio e gratidão.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/wow.html

O caderno inglês - 30Dez2008 12:18:00


O melhor de 2008 estava também no meu caderno inglês, que perdi num táxi, em Lisboa, anotações precisas (e agora imprecisas) da minha última estada londrina. Uma semana sozinho e à chuva e no No Man's Land de Pinter com um Michael Gambon portentoso, na apertada Rough Trade a comprar discos dos Magazine e dos Josef K, na sala do santo divã freudiano em Maresfield Gardens, na Waterstone's de Piccadilly sentado no meio da poesia, nos cinemas e esplanadas de Leicester Square, num teatrinho de bairro em Hampstead ao domingo, numa exposição Bacon com os recortes do estúdio dele (toureiros esventrados, estudos de Muybridge, acidentes de automóvel), na London Review Bookshopo que é a minha ideia de civilização, no Ivanov na versão de Stoppard com as suas cenas de festa e tragédia, no Rothko da fase negra que torna variado e metafísico o negrume total, no tributo a Nico com Cale & amigos. (Peter Murphy imponente, Mark Lanegan cavernoso, a ladina Eleanor Friedberger, os berros de James Dean Bradfield, o cowboy renitente Mark Linkous), na misoginia divertida e dolorosa dos Credores de Strindberg, na minha colecção Bresson completada com Le Diable Probablement, tudo isto e mais, a minha quarta ida a Londres em dois anos, desde que o Pedro me abanou duma tristeza profunda em 2006 com um simples bilhete de avião, Londres como gesto de amizade, Londres como oxigénio na minha fase de dióxido de carbono, num mundo tão triste mas menos exaltante que Strindberg, Nico ou uma tela negra e ainda mais negra de Rothko.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/o-caderno-ingls.html

Hetero-autobiografia aos 36 - 30Dez2008 11:16:00
1. Começo te dizendo que não tenho nada contra manipular, assim como não tenho nada contra ser manipulado; ser instrumento da vontade de terceiros é condição da existência, ninguém escapa a isso, e acho que as coisas, quando se passam desse jeito, se passam como não poderiam deixar de passar (a falta de recato não é minha, é da vida). Mas te advirto, Paula: a partir de agora, não conte mais comigo como tua ferramenta.

2. Você me deu muitas coisas, me cumulou de atenções (...). Não quero discutir os motivos da tua generosidade, me limito a um formal agradecimento, recusando contudo, a todo risco, te fazer a credora que pode ainda chegar e me cobrar: "você não tem o direito de fazer isso". Fazer isso ou aquilo é problema meu, e não te devo explicações.

3. Nem foi preciso fazer um voto de pobreza, mas fiz há muito o voto de ignorância, e hoje, beirando os quarenta, estou fazendo também o meu voto de castidade. Você tem razão, Paula: não chego sequer a conservador, sou simplesmente um obscurantista. Mas deixe este obscurantista em paz, afinal, ele nunca se preocupou em fazer proselitismo.

4. (...) É preciso saber ouvir os gemidos da juventude: em geral, vocês reclamam é pela ausência de uma autoridade forte, mas eu, que nada tenho a impor, entenda isso, Paula, decididamente não quero te governar.

5. (...) Está muito certa aquela tua amiga frenética quando te diz que sou "incapaz de curtir gentes maravilhosas". Sou incapaz mesmo, não gosto de "gentes maravilhosas", não gosto de gente, para abreviar minhas preferências. (...)

12. No pardieiro que é este mundo, onde a sensibilidade, como de resto a consciência, não passa de uma insuspeitada degenerescência, certos espíritos só podiam mesmo se dar muito mal na vida; mas encontrei, Paula, esquivo, o meu abrigo: coração duro, homem maduro. (...)


(«O ventre seco», de Raduan Nassar, do magnífico livro de contos Menina a Caminho, 1997, edição portuguesa da Cotovia)

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/hetero-autobiografia-aos-36.html

Sweet about me - 30Dez2008 11:00:00
Acordo com aquela canção em que uma menina repete no refrão «nothing sweet about me», mas não adianta, mesmo que o demónio tome a forma de telefonia matinal não adianta, acabou-se, sweet ou nothing sweet acabou-se, nem todas as meninas são doces, que espécie de idiota imagina tal coisa?, e onde não há ternura não há obrigações, cada um vai à sua vida, já foi, tenho pena que fique essa memória dela e essa experiência de mim, um «nothing sweet» mútuo e em fases, a dela calculista e a minha quase criminosa, mas paciência, o demónio que não me tente que eu já lhe dei suficientes agrados, que ele vá à sua vida, como ela e eu, porque é preciso renunciar à tentação da tristeza e depois à tentação da amargura, e então quem é derrotado é o próprio demónio que, quem sabe, talvez um dia se torne dócil.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/sweet-about-me.html

A alma do negócio - 30Dez2008 01:10:00
Com Marx, Darwin, Nietzsche e Freud aprendemos a suspeita. Quando se conhece uma menina marxista, darwinista, nietzschiana e freudiana, é lição para toda a vida. A desconfiança é a alma do negócio, e tudo isto é basicamente um negócio. Vem no Marx, filha. E no Darwin, no Nietzsche e no Darwin.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/alma-do-negcio.html



Com Freud aprendemos que a linguagem obscurece as intenções, e que a pulsão sexual é mais lúcida que a conveniência social.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/reviso-da-matria-dada-4-freud.html



Com Nietzsche aprendemos que a piedade é um vício dos fracos, e que não há aristocracia sem desprezo.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/reviso-da-matria-dada-3-nietzsche.html



Com Darwin aprendemos que o mundo é dos fortes que não se envergonham dos seus penachos, e que a natureza tem lógica mas não tem sentimentos.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/reviso-da-matria-dada-2-darwin.html



Com Marx aprendemos que as classes sociais são uma hierarquia cooptada e que a diferença de classe imaginária é tão motivo de exclusão como a diferença real.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/resumo-da-matria-dada-1-marx.html

2008 numa canção - 29Dez2008 16:47:00


Around your crooked conscience she will wind
And it's a lot to ask her not to sting
And give her less than everything
Innocence and arrogance entwined


[The Last Shadow Puppets. «My Mistakes Were Made for You»]

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/2008-numa-cano.html

Os piores de 2008 - 29Dez2008 15:27:00
Não li livros estrangeiros maus, porque escolho com cuidado, mas claro que li ou passei os olhos por dezenas de romances portugueses de caca. O livro que mais me desgostou foi a correspondência Régio/Nemésio, que naquelas páginas não passam de um melindroso e de um petulante metidos nas tricas literárias mais lamentáveis. Nos discos, os barretes do ano foram os álbuns de Elbow e Bon Iver (que estão em vários best of das revistas especializadas). No cinema, mon coeur balance entre Autópsia de um Crime (para quê um remake?), As Duas Faces da Lei, O Estado Mais Quente e Obsessão Mortal, mas provavelmente foi este último.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/os-piores-de-2008.html

Frases do ano - 29Dez2008 14:53:00
«Vayanse al carajo yankees de mierda», do presidente venezuelano Hugo Chávez.
Porque é a tradução em demótico da prosa entediante dos intelectuais «diplomatiques».

«De manhã só é bom é na caminha», do atleta olímpico Marco Fortes em plenos Jogos Olímpicos.
Porque gosto de frases sensatas em timings insensatos.

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/frases-do-ano.html

NEGATIVOS
No plano nacional, três leis negativas: a lei do divórcio, o Acordo Ortográfico e a lei do tabaco.

O Governo quis acabar com a ideia de culpa e com a burocracia, mas contribui para a erosão do conceito de responsabilidade e imagina casais divorciados civilizadíssimos, enquanto os casais reais vão atafulhar os tribunais com infindáveis questões monetárias e de custódia dos filhos.

O Governo quis afirmar o Português como idioma forte e unificado, mas este Acordo tem um vício gravíssimo em termos de filosofia da língua: dispensa a etimologia em favor da fonética, depreciando ainda mais a norma escrita que é o esteio duma cultura.

O Governo quis alertar para os perigos do tabaco e zelar pela saúde pública, mas contribuiu para o puritanismo da saúde que se sucede civilizacionalmente ao puritanismo sexual, e que herda daquele o carácter intolerante e persecutório.

POSITIVOS
A revista inglesa Standpoint
Fidel já de fato de treino
O Não dos irlandeses ao Tratado de Lisboa
O concerto de Leonard Cohen em Lisboa
A presidência europeia de Sarkozy
A «distensão» que se segue à eleição de Obama
A elevação intelectual de Bento XVI
A rainha da Jordânia

Fonte: http://estadocivil.blogspot.com/2008/12/acontecimentos-do-ano-alm-da-crise.html